OS TAIS “... mais encantos na hora da despedida”

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(Machado Soares/Chico Mateus (?), Balada da Despedida)

Como a água que flui pelos rios em direcção ao mar, límpida ou barrenta, remansosa ou mais apressada, as dezenas de milhares

de palavras que ao longo de muitos anos seguiram de mim para este Jornal.
Creio, porém, chegado o tempo de as estancar.


Os meus 87 anos e sobretudo a minha datação de uma geração que já é doutrora, daqueles idos de parágrafos estendidos e sem separação de linha, pretensamente carregados, não se coaduna com o que por aí vai e que cada vez menos presta atenção a “velhos do Restelo”. Longevos que, e são muitos os que assim o creem, já pouco ou nada de interesse lhes conseguem transmitir. E no entanto alguns desses idosos podem pressagiar algo como o daquele ancião de aspecto venerando que, “das praias”, clamava contra aquela quimera que submergia o país; miragem que lhe negava o desejável futuro alicerçado num continuado, árduo e profícuo trabalho produtivo (ou o, em análogo sentir e num mais restrito sentido, Sá de Miranda, quando avisadamente e escrevendo a António Pereira, Senhor de Basto, sentenciou “Mas temo-me de Lisboa/que, ao cheiro desta canela,/o reino nos despovoa.). Mas ele, aquele ancião que da margem bradava, é que tinha razão; razão que os saberes actuais objectivamente lhe conferem, como o demonstra, numa racionalidade materialista saborosa e irónica, Gedeão, no seu Poema para Galileo: “... Ai, Galileo!/mal sabiam os teus doutos juízes, grandes senhores deste pequeno mundo,/que assim mesmo, empertigados nos seus cadeirões de braços,/andavam a correr e rolar pelos espaços/à razão de trinta quilómetros por segundo./Tu é que sabias, Galileo Galilei,/...”. Mas, ou porém, não é minha intenção embrulhar-me na sustentação destas alusões, ou na sua explicitação. Já se foi o tempo disso. Trago-as, apenas e sem quaisquer pretensões, para emparelhar a minha ínfima experiência com ambos aqueles, o velho camoniano e o poeta de Fiscal, oráculos duma entranhada razão que os fazia expressá-la. E similarmente, as mais das vezes, por a mesma minha desconformidade com situações que se apresentavam. E assim, também eu me fui exprimindo aqui, menos bem oumesmo mal. Foi, pois, esse o meu trajecto neste semanário.

Noutros igualmente estive. Mais novo, menos experiente. Mais esperançado numa idade nova!
Mas, nas voltas e reviravoltas que o mundo dá, numa Europa que até há pouco primava pela individualização humanista e que paulatinamente tem vindo a resvalar para um insano individualismo, ou até um seu exacerbamento que muitos consideram narcísico (o que tem acarretado uma crescente ostracização da participação em o interesse colectivo e o bem comum), eu já não me revejo, nem tenho interesse em nisso me imiscuir. Quero ficar de fora. No entanto eu sei que a Terra continuará a girar sobre si, à volta do Sol e este continuará a rodopiar pela Via Láctea, que por sua vez se afasta do centro deste Universo. Que, do mesmo modo, a biosfera prosseguirá o seu processo e, nela, as sociedades humanas também vão continuar a evoluir.
Quer a evolução destas seja de cariz positivo, ou negativo (no conhecimento histórico de que sempre tem havido retrocessos e até extinções). Tudo isto porque a dinâmica da matéria ensina-nos que as causas sequencialmente consequentes são as únicas que determinam os efeitos que subsistem, já que as que conduzem a inviabilidades levam à aniquilação deles. Dentro desta lógica, cabe-me ainda acrescentar que não acredito na exageração dos dramatismos, nem em mimetismos históricos. No entanto, parece-me que estamos a atravessar um ciclo de desenvolvimento assaz contrário àquilo que gostaria que fosse, dado que sinto que os valores de que estou imbuído e que defendo estão em crise, numa espécie de hibernação cujo fim não diviso. Daí também a minha retirada. E sobremodo por o meu natural decaimento de vitalidade (esgotado de há anos o prazo de validade). De,
portanto, o corpo estar a soçobrar. De as forças para continuar, a lucidez para prosseguir, ameaçarem começar a diminuir. E antes que estas circunstâncias se manifestem abertamente, prevenindo-as, friamente, saio; abdico desta modalidade de comunicação.

Não é que isso seja fácil, ou melhor, que não sinta uma certa falta. Mas aí o problema daqui em diante será só meu e não será transmissível a ninguém. Tanto mais que, penso, ainda me vou com capacidades para continuar a observar, ver e ouvir o com o que me vou deparar. Mas os resultados dessa observação, como disse, quedarão no meu ermamento. Aonde, assim o espero, prosseguirei a fruir o me ser. Ah o ser!
Sim, porque o verdadeiramente importante de qualquer animal no seu ocorrente alumbramento é o seu estar, o efémero ser. Particularmente nos humanos, em que a capacidade do se cientarem (o saber de si e do seu exterior) é a mais elevada do planeta e assim disfrutamos duma compreensão muito ampla. Apta, segundo o grau de literacia e conhecimentos, a desvendar e ir apreendendo a realidade do todo cósmico, do eu pessoal que cada um é ao absoluto Universal. E gozar do prodígio que representa essa apreensão do viver; de como o desenrolar do processo material engendrou nesta nossa Gaia essa sequencial, mas maravilhosa e deslumbrante, potencialidade. Condição essa que, ainda que de liliputiana estadia, no entanto, em cada individualidade é igualmente um absoluto. E que, com o decorrer da veloz corrida e com a aproximação da meta, cada vez com maior apetência se a vai desfrutando e valorizando. Daí que, neste descer do pano mediático, se me impõe concluir

AVE VITA, MORITURUS TE SALUTA”.

Fundevila, 9 de Julho de 2025


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